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Trump, o medo e o mundo

Imagem: Wix
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Parece aceitável a tese de que às disrupturas que antecedem e pavimentam a passagem de um momento histórico a outro (em geral claramente perceptíveis somente após concluída a passagem) corresponde uma figura humana emblemática. Adicionalmente, parece ser também um dado que se repete o fato de que quanto mais profundas as mudanças de uma dessas passagens, maior a tendência a que sua figura emblemática, que se tornará um herói ou anti-herói histórico (Lênin ou Hitler, por exemplo), tenha natureza/propensão bélica.

 

Talvez a segunda hipótese – sobre o belicismo da figura emblemática – tenha a ver com o medo que permeia a natureza humana. O rebanho ameaçado pelo lobo que se aproxima com os dentes à mostra, valoriza aquele que se oferece como seu pastor, sem inquirir sobre quem é ele. O lobo, na História, é o desconhecido, o novo, tudo aquilo que ainda não se sabe o que pode ser e fazer e que, portanto, surge como ameaça (o bárbaro, o infiel, o herege e adjetivos tais dando claros exemplos do que se trata).

 

Há quem afirme – parece que acertadamente – que o receio em relação ao desconhecido, levando a uma atitude de hostilidade em relação a ele, é um sinal claro do mais básico instinto de sobrevivência, que prescinde de uma inteligência elaborada e sofisticada – faz parte do animal irracional que, apesar da irracionalidade, já adquiriu uma capacidade de antecipação, de planejamento: detecta algo novo e se antecipa aos males que este pode vir a lhe impingir.

 

O lançar mão de escudos e flechas, antes de óculos e luzes, diante do novo ou do diferente, não deixa de ser uma demonstração de um insuficiente nível de inteligência/razão, pois lança quem adota esta atitude aos degraus mais baixos da condição animal irracional de que o ser humano não pode, e talvez jamais possa, se livrar. O instinto se sobrepõe à atitude avaliativa madura, gerando conflito em vez de negociação, guerra em vez de diplomacia,  fúria em relação à diferença, em vez de aproveitamento dela para evoluir.

 

Trump é, certamente, uma figura emblemática da transição do capitalismo urbano-industrial-global/financeiro para algo que ninguém sabe, ainda, o que será. Ele concentra em suas mãos um poder que poucos seres humanos detiveram na História. Diferentemente de Hitler, não age para e se propondo a reerguer um império derrotado: ele o faz antes da derrota, o que amplia suas possibilidades de sucesso. É, em suma, uma novidade em princípio aterradora.

 

Ninguém mais do que Trump, hoje em dia, maneja o uso da ameaça para fazer frente à soma e à multiplicação dos medos que apavoram os indivíduos humanos neste momento enigmático da História. E é sintomático que ele o faça sem freios, sem corar ou ter os batimentos cardíacos alterados – trata-se de um pastor diante de ovelhas aterrorizadas em todos os pastos do mundo; ovelhas brancas, negras, gordas, magras, novas, velhas...

 

Que o pastor cuide das ovelhas apenas porque tem interesse na lã, no leite e na carne, detestando seus berros, suas fezes, suas necessidades (que lhe impõe trabalho), não é algo que estas sejam capazes de notar, no conjunto. Que uma ou outra delas convide a atacar o pastor é algo que nunca se viu, enquanto desgarrar é algo que acontece com frequência – solução individual para problema coletivo. Portanto, nada a esperar das ovelhas, a não ser ovelhices... De onde, então, há de vir uma esperança para a massa fornecedora de lã, leite, carne, sustento, enfim, para o pastor e para todos aqueles que dele adquirem os produtos extraídos do rebanho, às suas expensas? Do cão que auxilia o pastor? Pode haver uma revolução dos bichos?

 

À parte metáforas zoológicas, “o bicho tá feio”! Trump está chutando todos os baldes, cheios e vazios. Bate de frente com as mais caras noções americanas de liberdade e democracia, se lixando para as caras ideias dos “pais fundadores” da América. Lança à lata de lixo a pax americana, os EUA não mais aceitando ser polícia do mundo. Desdenha do livre comércio e da globalização a ele correspondente. Enxota os imigrantes e despreza olimpicamente o Estado de Direito, os diretos humanos, os acordos internacionais. Abandona sem pestanejar antigos aliados – a Europa que se vire com seus meios, a Ucrânia que pague por auxílio ou enfrente sozinha o inimigo russo etc. Fecha questão a favor de um nacionalismo que parecia para sempre superado: quer para os EUA a Groenlândia como muro protetor geopolítico – volta à guerra quente/fria.

 

Nota-se em Trump uma espécie de desequilíbrio mental, mas que é sintoma, na verdade, de uma propensão coletiva, mundial, de rompimento de um equilíbrio (interno e externo aos Estados-Nação) que não mais satisfaz, sem que em seu lugar um novo equilíbrio se mostre imediatamente viável. Portando, o sucesso ou fracasso de Trump, e de sua trupe autocentrada, na condução do governo dos EUA e no destino de temas e problemas globais fortemente influenciados pelas decisões americanas, é algo que determinará o futuro do mundo. O contraponto em que consistirão os posicionamentos da União Europeia às políticas e ações de Trump é, também, por sua vez, um dado a considerar nos esforços prospectivos.

 

Quem, por sua vez, é o Brasil neste contexto? Existe algo que se possa, econômica e geopoliticamente, chamar de América Latina, se nem mesmo no caso da Europa se pode considerar que há uma real e efetiva União, apesar de todos os avanços, incluindo a moeda única?

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