Meu eu
- Valdemir Pires
- 15 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de mar.

Quem sou eu? Perguntinha malvada, traiçoeira! Você saberia respondê-la se lhe fosse dirigida? Responderia com sinceridade?
Sob que ponto de vista podem desejar ou precisar saber quem sou eu? – pergunto para me defender e ganhar tempo.
Do ponto de vista do universo: sou nada, de fato, menos que nada. Nada menos nada multiplicado por um valor infinito. Como todo e qualquer ser humano.
Do ponto de vista do planeta: sou um entre 8 bilhões de pessoas. Ou seja: ninguém. Vivendo num lugar que pouco representa, falando uma língua que é quase um dialeto local. Dizer que sou “Apenas um rapaz latino-americano” chega a ser pretensão às raias do absurdo. “Sem dinheiro no bolso”, nem tanto: com o suficiente para o mínimo necessário, à custa de suor e, às vezes, lágrimas. “Sem parentes importantes”, com certeza. Não digo “vindo do interior”, porque no interior permaneço, e só por ele circulei, avançando para além esporadicamente.
No lugar/país onde moro, sou um sujeito qualquer, entre os outros quase 220 milhões. Lutando diariamente para evitar a miséria. Agarrando-me firmemente às possibilidades de manter-me esclarecido e sensível, para não me tornar parte da massa estupidificada que se avoluma e ameaça tomar conta do mundo, real e virtual (principalmente deste).
No lugar onde moro/cidade, circulo anônimo, desejando esta abençoada condição, que evita abordagens inoportunas e notoriedade inútil. Cidadão-eleitor-contribuinte, consumidor-cliente (freguês, como se diz no interior), gente sem luxo do subúrbio, interlocutor arredio (por preferir a palavra escrita).
Tive sonhos grandes. Ah, como os tive! Fui jovem, o mundo para mim foi grande e desejei engoli-lo todinho. Todinho, não, agora percebo: o que dele eu podia ver, mergulhado no valezinho rodeado por imensas montanhas em que então eu me encontrava. Escalei uma delas (umazinha), com garra e gosto – foi bom! Mas serviu para que eu entendesse que só poderia, do mundo, engolir um pedacinho, mínino. A que não me recusei, muito pelo contrário. E estou satisfeito? Não sei dizer, mas posso afirmar que hoje me parece tolo querer mais ou, até mesmo, desejar engolir o mundo ou parte dele – o mundo não foi feito para ser engolido; quem acaba engolido é todo aquele que tenta engolir o mundo. Embora este impulso para engolir o mundo tenha lá seu valor: foi na tentativa de fazê-lo que alguns loucos (de Alexandre a Zaratustra) – sim, loucos – realizaram coisas inimagináveis para a massa de pessoas com pouco apetite ou baixa ambição.
“Dizem que sou louco por pensar assim”. Talvez. Mas quem pode afirmar? Existe alguém que pode dizer quem sou eu, se eu mesmo não encontro palavras para uma tal definitiva definição? E, além do mais, eu não sou: vou sendo, num processo diário em que definir se confunde sempre com redefinir. Ao acordar, projeto ser algo e, antes de dormir, vejo que não fui, nunca plenamente, pelo menos. Em mim, lá no fundo (que não sei onde fica) o velho de hoje luta contra o menino de ontem, hoje e sempre; as conquistas são questionadas pelas derrotas, sem cessar; o triste e o alegre terçam armas, nenhum se dando nunca por vencido; o todo e as partes não se entendem – há um tribunal em que meu eu é, ao mesmo tempo, réu, acusação, defesa e juiz.
Eu disse “meu eu”? Um eu de que sou dono? Isso existe?
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