Cartas a um jovem gestor público - 5a.
- Valdemir Pires
- 26 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 5 de mar.

Caro Alberto, desta vez lhe escrevo um tanto triste. Mas sem baixar a bandeira, como verá – não podemos.
Lembra-se do Bernardo, aquele rapaz que a turma apelidou de Mr. Weber, porque em tudo se assemelhava ao típico burocrata weberiano? Pois então, ele acaba de sofrer um revés. Terminou a graduação em Administração Pública com louvor (no ano em que você ingressou no curso – estava na sua recepção), fez mestrado, doutorado. Boa dissertação, excelente tese. Há dois anos ele assumiu um cargo de segundo escalão num governo estadual. Meteu as mãos na massa, fez e aconteceu: transformou uma secretaria natimorta num dos órgãos mais dinâmicos e efetivos do Estado. O que aconteceu foi o seguinte.
O Bernardo estava fazendo as coisas certas, agindo daquele modo que é tão dele: sentido de missão, dedicação, fidelidade, vocação para a ciência (daí o apelido tão acertadamente dado pela turma). Tudo levava a crer que ele iria até o fim do mandado e talvez até engatasse em outra missão em seguida, com o mesmo grupo político ou outro – jogador bom qualquer time quer. Elogios para lá e para cá. Chegou a ganhar um prêmio por inovação no setor público. Mas... O tal do “mas”. O mundo não se move por engrenagens e, caso se movesse, elas não iriam sempre na mesma direção e seus dentes nem sempre se encaixariam.
Na semana passada ele foi demitido. Em seu lugar foi colocado um senhor que antes havia sido candidato a deputado estadual por um dos partidos da coligação que elegeu o governador. Bernardo, além de desolado, está revoltado. Com razão. Disse que a pessoa que o sucedeu não tem a menor competência para o cargo, muito menos disposição para leva-lo a sério. De fato, o cargo servirá apenas para que ele tenha um salário, para se dedicar a atividades outras, de interesse de seu grupo político. O cúmulo do desrespeito ao seu colega foi terem lhe proposto continuar o mesmo trabalho de antes, só que num cargo de terceiro escalão, com a metade do salário.
Revoltante, de fato, não é? Diante desse acontecimento a gente pergunta: para que estão servindo os cargos da administração pública no Brasil? Acho que episódios como este, envolvendo o Bernardo, devem estar diminuindo no país. Puro “achismo”, entretanto. Ainda assim, estou certo de que acontece muito, diariamente. Afinal, somos a terra do presidencialismo de coalizão, em que os participantes das coalizões continuam sendo bastante patrimonialistas. Grupos se juntam para açambarcar frações do Estado, a fim de transformá-las em quase-propriedades suas. Tudo o que fazem com valor republicano e democrático genuíno (quando fazem) não passa de simples verniz, visando alguma legitimidade diante daqueles (poucos) eleitores que não escolhem representantes apenas para depois lhes pedir favores pessoais.
Bernardo está pagando o preço por uma mercadoria que não pretendeu comprar. Cuidado, Alberto, para não incorrer no mesmo erro. Ocupar cargos de livre nomeação, os chamados cargos de confiança, implica em assumir risco. É como aplicar dinheiro em ações: pode ganhar mais do que em outras modalidades de aplicação financeira, mas se bobear pode também perder tudo.
Mas, por outro lado, são exatamente esses cargos que oferecem melhores oportunidades de realização, num governo, porque neles você se relaciona diariamente com os decisores político-estratégicos, ao mesmo tempo em que comanda agentes técnicos nos níveis tático-operacionais; relacionando-se diretamente com os tomadores de decisão por excelência (representantes eleitos), você compartilha com eles essas decisões, com um grau de influência tecnopolítica derivada de sua formação, e cabe-lhe, em seguida, mover as peças para que sejam transformadas em ações e resultados. Portanto, qualquer profissional de nível superior em Administração Pública competente e comprometido almeja ocupar tais cargos – até que descobre que...
Um escudo contra este tipo de problema é conquistar um cargo por aprovação em concurso público e, depois de ocupá-lo, buscar e aproveitar oportunidades – que existem – de nomeação para posições de livre nomeação, nelas se mantendo até que que deseje deixá-las ou delas o retirem, retornando então ao cargo de origem. Para um burocrata tipicamente weberiano, tudo bem: sua missão é fazer funcionar a “máquina”, não dirigi-la. A questão, aí, é o “típico”. O tipo não existe, é só uma teorização referente ao exemplar “puro”. O homem real tem traços do tipo, mas também traços de outros tipos. No fim das contas, Alberto, você sempre está servindo ou a Deus ou ao Diabo, em política e também na gestão pública. Conheço casos de gestores públicos da administração federal concursados num ministério, que já passaram por quatro outros, sob governantes de centro-esquerda e de centro-direita. Um ou outro é arrivista: tanto faz onde esteja ou a quem sirva, desde que lhe caiam suficientes migalhas à mesa improvisada. Mas a maioria é gente capaz e disposta a ajudar a bem governar, com foco no interesse coletivo – não sei como fazem para engolir e digerir os sapos que lhes enfiam goela abaixo; deve existir uma arte para isso.
A única coisa que me ocorre, de pronto, como recomendação àqueles que viveram, vivem e viverão situações parecidas com a que colheu subitamente Bernardo – perder o cargo público de livre nomeação por causa de negociações político partidárias que incluíram seu cargo no pacote negociado para manter as alianças do momento – é que se articulem entre si para se socorrerem mutuamente, diante das necessidades de recolocação. Só assim poderão seguir ocupando posições de mando densamente técnicas, sem muito medo (algum sempre haverá) de cair no desemprego. Uma forma de conseguir isso é fazer com que a Pró-Pública crie e mantenha em perene funcionamento um Banco de Talentos Tecnopolíticos e um Banco de Cargos de Confiança Disponíveis, que auxiliem profissionais em situação de transição. Quando houver um Conselho Profissional da área, este poderá assumir estes bancos de dados e ampliar seu alcance. Excluída esta alternativa, a outra é o profissional definitivamente se tornar militante partidário e acessar cargos por esta via; ou encarar a vida política na totalidade: conquistar cargo eletivo.
Pobre Bernardo. Compartilho sua frustração, me solidarizo e observo esse dilema se repetindo diariamente. O Bernardismo é uma realidade incontestável—uma engrenagem invisível da administração pública—mas, curiosamente, pouco estudada. Não há pesquisas que a mensurem, nem indicadores que revelem o impacto dessa dinâmica na gestão pública. Seguimos à mercê de um sistema que ignora talentos e premia conveniências, sem ao menos dimensionar o prejuízo causado. Força, Bernardo! E cuidado, Alberto!