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Aprendiz de Homero




Sobre Aprendiz de Homero, de Nélida PIÑON (Rio de Janeiro: Record, 2008, 365 p.)

 

Quando romancistas e contistas escrevem ensaios, geralmente oferecem aos leitores oportunidade para sondar a visão de mundo que subjaz aos seus escritos artísticos, revelando, muitas vezes, o seu processo criativo e a gênese de sua condição de escritores. Em Aprendiz de Homero, Nélida Piñon não foge a esta regra, indo um pouco além, ao discutir a condição feminina no âmbito literário, especialmente nos ensaios Dulcinea – a agonia do feminino, O sorriso de Sara, A memória secreta da mulher e Jesus.

 

A condição de brasileira e latino-americana, com ascendência galega (que muito preza, como deixa claro em especialmente em Galícia: a nostalgia das palavras), também é objeto de reflexão nesta alentada e prazerosa coletânea da ex-presidente da Academia Brasileira de Letras (“Procedo do Brasil e reverencio a majestade da língua portuguesa.” – p. 349). Ela se vê e se sente na condição de um ser com os pés no chão da pátria e os olhos tanto ali como no mundo, mente e coração em permanente vai-e-vem de um para o outro.

 

Alguns ensaios são belas resenhas de grandes obras literárias e elogios a grandes romancistas, seus amigos (O afortunado Sancho [Cervantes], O rosto de Carlos [Fuentes], O escriba Mario [Vargas Lhosa], Tróia e Machado [de Assis], Aprendiz de Homero, Armadilha do esquecimento [Gabriel García Marquez]). Arquimedes, o bom repórter presta tributo a um profissional desta área que influenciou a também jornalista Nélida, em sua infância; e também lança luzes sobre a fronteira tênue entre literatura e as práticas do noticiário quotidiano. A magia urbana coloca em evidência a cidade, não apenas como cenário da literatura moderna, mas também como fundamento e causa de uma nova poética, distinta da concebível sob condições agrárias ou nômades: “A cidade mostra-se arredia. Seus subsídios narrativos desobedecem a um padrão comunitário. Nenhum modelo de polis domina os impulsos da imaginação. O acampamento urbano perturba o criador confrontado com a consciência do múltiplo que se associa ao personagem.” (p. 327)

 

A memória, a imaginação e a palavra (oral, dos rapsodos; e escrita, dos literatos) – fontes e instrumento do fazer literário, são, essencialmente, as matérias abstratas com que Nélida se ocupa em Aprendiz de Homero, encantada que foi, desde criança, com a narrativa e a fabulação (como revela em Os segredos da narrativa e em A epopéia da leitora Nélida).

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